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Como precificar consulta particular sem copiar o preço do vizinho

Custo, ocupação e posicionamento: como chegar ao preço da consulta particular com conta feita, e o erro de baixar valor com agenda vazia.

7 set 2026·7 min de leitura·Equipe Crescita

A pergunta chega sempre pela porta errada: "quanto os colegas daqui estão cobrando?". É uma informação útil e é a última que deveria entrar na conta. Preço copiado do vizinho carrega a estrutura de custo do vizinho, o volume de agenda do vizinho e as dívidas do vizinho.

Precificar consulta particular tem três entradas: o piso que os seus custos impõem, o teto que o seu posicionamento sustenta e o limite que a sua agenda comporta. A maior parte das clínicas nunca calculou a primeira e negocia às cegas dentro das outras duas.

O piso: quanto custa abrir a porta

Exemplo hipotético, clínica de dois consultórios. Custos fixos mensais:

  • Aluguel e condomínio: R$ 6.500
  • Folha da equipe administrativa, com encargos: R$ 14.200
  • Contabilidade: R$ 1.400
  • Sistema, telefonia e internet: R$ 2.000
  • Marketing: R$ 3.000
  • Limpeza, insumos e materiais: R$ 2.000

Total: R$ 29,1 mil por mês. Agora a capacidade. Dois consultórios, 6 horas de atendimento por dia, 22 dias úteis, consultas de 30 minutos: 528 vagas. Com ocupação real de 70%, 370 consultas por mês.

Custo fixo por consulta: R$ 29.100 ÷ 370 = R$ 79. Some o variável — taxa de cartão a 3,2%, material de consumo, o repasse ao médico quando existe. Se o repasse é de 40% sobre o valor cobrado, a conta do preço mínimo fica assim: preço × (1 − 0,40 − 0,032) = R$ 79, o que dá R$ 139 apenas para empatar.

Esse é o piso, não o preço. Quem cobra R$ 250 nessa estrutura está lucrando por consulta, mas com uma margem que evapora no primeiro mês em que a ocupação cai para metade — e é exatamente por isso que a ocupação precisa estar na mesma planilha que o preço.

O que a ocupação faz com o número

A mesma clínica, mesma estrutura, com 260 consultas em vez de 370: o custo fixo por consulta sobe de R$ 79 para R$ 112. Nada mudou na operação além do movimento. Uma queda de quase um terço na agenda encarece cada atendimento em 42%.

Daí a conclusão que incomoda: quem tem agenda vazia não pode baixar preço para enchê-la, porque a estrutura de custo está pedindo o contrário. Baixar preço com ocupação baixa é a decisão mais intuitiva e a mais cara que se toma numa clínica.

O teto: até onde o seu posicionamento sustenta

Aqui não existe fórmula, e quem apresenta uma está inventando. O que dá para observar é o comportamento: se a sua agenda está cheia com três semanas de espera e a taxa de desistência é baixa, o preço está abaixo do que o mercado aceita de você. Se metade dos contatos novos some ao ouvir o valor, você chegou perto do limite — ou a conversa antes do preço está mal feita.

Não existe média nacional confiável de preço de consulta particular por especialidade no Brasil. As tabelas que circulam misturam capital com interior, primeira consulta com retorno, e nenhuma é auditada. Use como referência de bairro, nunca como base de decisão.

Simulação antes de mexer

Passar de R$ 450 para R$ 520 é um aumento de 15,6%. Com 370 consultas, o faturamento sai de R$ 166,5 mil para R$ 192,4 mil — se nenhum paciente sair, o que não acontece.

Suponha que 10% dos pacientes deixem de marcar. Sobram 333 consultas a R$ 520: R$ 173,2 mil. Ainda são R$ 6,7 mil a mais por mês, com 37 atendimentos a menos na agenda. Menos gente na sala de espera, mais dinheiro no caixa e mais tempo por paciente.

Faça essa simulação com a sua elasticidade antes de anunciar qualquer reajuste. E anuncie com prazo: pacientes em acompanhamento avisados com 60 dias de antecedência reclamam bem menos do que os pegos de surpresa no balcão.

Os erros que aparecem com mais frequência

  • Preço único para consulta longa e retorno de 20 minutos. São produtos diferentes ocupando tempos diferentes da sua agenda.
  • Repasse ao médico calculado sobre o bruto, com a clínica absorvendo taxa de cartão e imposto. Some no papel, aparece no fim do trimestre.
  • Desconto informal dado no balcão. Se ninguém registra, o preço real da clínica é desconhecido, e a margem que você calculou é ficção.
  • Anos sem reajuste "para não perder paciente". Três anos parado com custos subindo é redução silenciosa de margem, com a diferença de que ninguém decidiu nada.

Comece por aqui esta semana

Junte os custos fixos dos últimos três meses e divida pela média de consultas do mesmo período. Você terá o custo fixo por atendimento — um número que a maioria das clínicas não sabe de cabeça e que muda a conversa sobre preço em cinco minutos.

De posse dele, vale olhar a margem por serviço da clínica, porque o preço da consulta é só uma linha do conjunto. Quando os custos já estiverem organizados por centro de resultado, o financeiro da clínica devolve esse cálculo todo mês sem ninguém abrir planilha.

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